Willy Muller, consultor internacional do PDUI: “Talvez tenhamos de descrecer”

Data: 12/08/2016

Departamento: IAB RJ

Quais debates mobilizam as grandes cidades do mundo? Como compreendermos esses territórios cada vez mais populosos? As respostas a essas perguntas foram tema da entrevista realizada pela equipe do Modelar a Metrópole, o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI) da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com o consultor internacional do Plano, Willy Muller.

“O crescimento não é um valor único. Alguma hora talvez tenhamos que decrescer (o tamanho do território) para conseguir um efeito diferenciado”, diz o urbanista argentino, que é radicado em Barcelona, e foi um dos responsáveis pela remodelação da cidade catalã. Especialista no tema metropolitano, Muller também é diretor do Barcelona Urban Sciences Lab e co-fundador do Institute of Advanced Architecture in Catalunya (IAAC), com experiência em projetos de transformação urbana também em Moscou (Rússia) e Lima (Peru), além do Porto Maravilha, no Rio.

Os desafios dos espaços urbanos a cada dia se tornam mais complexos. Como podemos caracterizar a metrópole do século 21?

A palavra “metropolitana” é um conceito criado no século 20, que serviu para definir a expansão da periferia das cidades e toda a problemática que disso decorre. Hoje chamamos este espaço de hiper-região; nele, os indicadores, para além do tamanho, são as medidas que representam melhor o espaço.

Pela primeira vez na história da humanidade temos mais pessoas vivendo em áreas urbanas do que nas rurais. Pela primeira vez, mais pessoas moram nas cidades do que no campo. Os colapsos ocasionados por este inchaço são evidentes no transporte, no meio ambiente, e em outras áreas que não afetam tanto o nosso cotidiano.

Projetar o desenvolvimento metropolitano, como todos sabem, funciona apenas no longo prazo. Muitas vezes envolve décadas. E as mudanças climáticas, como o aumento do nível do mar, as chuvas e a qualidade do ar, mostram que as decisões não podem mais ser pensadas tão para frente.

Essas mudanças demandam novas formas de pensar as cidades?

Os modos de gestão planificados já estão mudando substancialmente. Um deles é aquele baseado na lógica industrial, ou seja, na acumulação de conhecimento baseado na experiência. Por exemplo: buscamos saber quantos carros passam por ano e em quais ruas. E a partir daí fazemos progressões planificadas para os próximos 20 anos.

Hoje vivemos na era da informação, que superou essa lógica industrial do século 20, com novas formas de produção digital. Nós temos uma tecnologia que está enviando dados a cada três segundos. Por isso precisamos nos acostumar a trabalhar nessa nova planificação de cenários instáveis, isto é, que podem vir a variar ao longo dos anos. Isso demanda fabricar tecnologias, softwares e novas ferramentas que sirvam para essa nova planificação. Essas discussões vão permitir a formação de um novo ator: o cidadão participativo. Hoje já existem mecanismos para que ele interaja com o planejamento urbano.

Tudo isso está alterando a nossa visão do que são áreas industriais para a cidade. Não tem mais sentido existir o que chamávamos antigamente de “subúrbio”, pois estamos absorvendo a atividade industrial sustentável e limpa para dentro da cidade.

Esse novo sistema produtivo também vai mudar a produção de comida: como iremos alimentar a população de uma região metropolitana com produtos do entorno, por exemplo? Não existe mais lógica em continuar a importar peixes da Ásia, que viajam 14 horas dentro de um avião, só porque um determinado local não possui atividade pesqueira. Cada vez mais é preciso mudar esses hábitos.

Barcelona é hoje uma das cidades com maiores índices de qualidade de vida do mundo. O que deu tanta qualidade ao seu desenvolvimento?

Em Barcelona foi a primeira vez que apareceu a palavra “urbanismo” em livros de ciência urbana. A cidade tem uma tradição ligada a experiência urbanística como conhecimento. Em segundo lugar, a migração do campo para cidade registrada nas últimas décadas na América Latina não ocorreu na mesma dimensão em Barcelona.

A experiência olímpica da cidade deixou como legado um anel de investimentos em infra estrutura que beneficiou áreas e municípios ao redor de Barcelona. Ali, todos entenderam que, quando partilhamos equipamentos de esportes, como a Vila Olímpica, estávamos criando uma associação entre os municípios. E cada um deles manteve sua identidade. Esse planejamento metropolitano favoreceu esse tipo de centralidade, ao contrário de Paris, onde resultou na criação de guetos, cordões de pobreza e exclusão.

Lá se aprendeu que precisamos criar sociedades mistas com diferentes atores sociais. E para isso um bom espaço público é necessário. A criação de espaços públicos feita por arquitetos em Barcelona foi um marco diferencial – antes eram feitas pelos planificadores -, e está no DNA da própria cidade. Tudo isso resultou em um modelo positivo de cidade e no bem-estar da população que ali vive.

Dessa experiência, o que pode se aplicar à Região Metropolitana do Rio?

Em primeiro lugar: criar uma cultura de proteção do espaço público. A América Latina em geral ainda tem pouco apreço a dar valor social a esses territórios. Aquele espaço-tempo que separa a população entre a casa e o trabalho ainda não é bem cuidado, o que é fruto da segregação social, típica de uma planificação excludente, que tem uma pendularidade alta, em que as pessoas perdem três ou quatro  horas diárias no transporte público.

Para reverter isso são necessárias reformas estruturais, econômicas em primeiro lugar, para se dotar de equipamentos de qualidade nas áreas mais degradadas. Em segundo lugar, é necessário criar uma rede de transporte público que reduza esse intervalo grande de tempo. Porém, o que acredito ser um dos itens mais importantes é trazer boa arquitetura e bom desenho para essas  mudanças. O que a gente vê é que a população aprecia o material arquitetônico de altíssima qualidade. Esse modelo deveria ser extrapolado para a área metropolitana, porque uma experiência positiva, quando se torna referência, acaba virando um hábito a ser adotado futuramente.

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