“A nossa arquitetura tem uma identidade clara”

Data: 11/07/2014

Departamento: Nacional

O Rio de Janeiro pode sediar, em 2020, o Congresso Mundial da UIA. O evento é considerado o maior, e o mais importante, fórum internacional de arquitetura, que reúne milhares de profissionais de todo o globo a cada três anos. Com o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”, a candidatura brasileira propõe discutir o papel da arquitetura na presente realidade urbana do mundo contemporâneo, onde se expressam a diversidade e a multiplicidade das formas urbanas e dos modos de produção das cidades. Porém, vencer a disputa não será fácil. Melbourne (Austrália) e Paris (França) também brigam para receber o evento. Para falar sobre a candidatura brasileira, o IAB entrevistou a conselheira titular do Brasil na UIA, a arquiteta Nadia Somekh, que também é presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp). Leia abaixo.

 
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IAB: Qual é a importância do Brasil receber o Congresso Mundial da UIA?

Nadia Somekh: O Congresso da UIA é um dos principais espaços de discussão da arquitetura, e o Brasil deve retomar o protagonismo nesse debate. Então, é muito importante que os arquitetos dos outros países conheçam as nossas cidades, os nossos problemas e, ao mesmo tempo, observem o atual desenvolvimento da arquitetura nacional. Essa experiência proporcionará uma troca de conhecimento importante. Além disso, o que está previsto para o congresso de 2020, através do IAB, é a realização de debates anuais sobre a arquitetura no Brasil. Serão vários eventos preparatórios e articulados em torno de um debate mundial. O principal objetivo será identificar como a arquitetura pode corresponder às necessidades das cidades contemporâneas.

IAB: Quais experiências podemos apresentar aos profissionais das outras nações?

NS: A arquitetura do edifício é um segmento muito desenvolvido no Brasil, e tem um reconhecimento internacional grande. Porém, acho que temos muito a contribuir no debate sobre as atuais demandas das cidades, como o esvaziamento dos centros industriais e históricos, e os projetos de revitalização portuária. O Porto Maravilha, no Centro do Rio de Janeiro, é um dos exemplos que temos para apresentar. Em compensação, podemos aprender muito com as experiências dos profissionais estrangeiros na transformação das áreas vazias das cidades. Ao mesmo tempo, a gente tem um enfoque ambiental incipiente. A questão ambiental é algo que pode contribuir ao debate. Certamente, esse conhecimento será muito importante para nós e para a arquitetura e urbanismo internacional.

IAB: A candidatura brasileira para sediar o Congresso da UIA busca discutir a arquitetura do Século 21. O que seria essa arquitetura?

NS: A arquitetura do Século 21 é aquela que respeita a especificidade dos sujeitos contemporâneos. Por isso, o Brasil propôs o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”. Entendemos que a arquitetura, ao mesmo tempo em que está conectada com o mundo, também deve pensar de forma global: um só mundo. Ou seja, temos que estar conectados, mas é importante fortalecer as identidades locais. Esse é um ponto que a gente pode contribuir no debate internacional. A nossa produção arquitetônica tem uma identidade clara. Um exemplo é a identidade da arquitetura vernacular (popular). Podemos citar outros, como a identidade de Brasília, a do Aterro do Flamengo, no Rio, e a da Pinacoteca, de Paulo Mendes da Rocha, em São Paulo. O importante a ser destacado é que a gente tem a criatividade popular na organização do tecido social das favelas. Com o devido tratamento, a exemplo da experiência do Favela Bairro, no Rio de Janeiro, podemos transformar esses espaços em bairros.

IAB: Como a experiência do Favela Bairro e de outros programas de urbanização de favelas podem contribuir na construção das cidades?

NS: O papel do arquiteto não pode se limitar aos projetos das grandes incorporadoras, mas deve ser ampliado, com a disseminação de projetos de qualidade. Nas favelas, há uma população que está excluída. Os debates anuais que o IAB vai promover podem tornar o Instituto e a arquitetura brasileira em importantes agentes de interlocução com a sociedade. Como já mencionei anteriormente, a nossa especificidade é a arquitetura do edifício. Então, podemos dizer que a arquitetura brasileira é elitista. Por isso, precisamos aumentar a discussão sobre urbanização de favelas e construir cidades mais democráticas. 

IAB: Em sua opinião, por que o Congresso Mundial da UIA de 2020 tem que ser no Brasil?

NS: A gente precisa retomar o protagonismo que já tivermos. Para isso, é necessário repensar o papel do arquiteto do Século 21. Ele não é o arquiteto renascentista, estrela. É o profissional que trabalha para o coletivo e discute os problemas da cidade. Já vamos ter um debate mais consistente com o Congresso de Durban, que acontecerá entre os dias 3 e 7 de agosto. O próximo evento tem que ser na América Latina. Como membro fundador da UIA, o Brasil precisa trazer o foco para as questões da arquitetura das Américas. Estamos prontos para esse debate. As especificidades da Ásia já foram discutidas, assim como as da Europa. Agora, as demandas da África estão em foco. Chegou a vez das Américas conduzir o debate. Nessa Copa do Mundo, a gente mostrou como o povo brasileiro é acolhedor. Isso foi importante. No caso da arquitetura, esse acolhimento vai acontecer no nível das ideias.
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Comentários (01)

Muito adequado o foco da Colega Nadia Somekh
sobre a questão das favelas e a possibilidade
de ,como brasileiros,trazer relevante contribuição
alinhada com paises e continentes que deverão
tratar dessa realidade da qual fazem parte integrante.

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