“Entregar à Segurança o redesenho de favelas é de uma inconsequência terrível”

Autor: IAB Data: 28/05/2013

Departamento: Nacional

O IAB inicia a série de entrevistas “5 perguntas”, em seu novo site, com Manoel Ribeiro. Urbanista, consultor da Unesco e Secretaria de Habitação do Rio e coordenador de oito projetos do Programa Favela-Bairro, ele tem criticado abertamente a interferência da pasta de Segurança Pública do Estado do Rio no planejamento urbano das favelas cariocas. ”A solução de um aspecto muito particular da vida dos favelados (acesso das viaturas policiais) não pode ser isolada das consequências que essa visão parcial pode gerar sobre o todo da vida social, cultural e econômica ali existente”, defendeu o urbanista. Leia a entrevista:

1) Questões de Segurança Pública têm ajudado a pautar as obras em favelas como a Rocinha, onde se planeja o alargamentos de vias. O que o senhor acha disso?

Manoel Ribeiro: No correr da história, a tarefa de “planejar” as cidades mudou de mãos diversas vezes. No Império Romano, eram os militares que as planejavam e os sacerdotes as inauguravam. Na idade média, a população ia ajuntando suas construções organicamente, formando labirintos cheios de vida. Na renascença, eram os artistas que produziam belas perspectivas, rasgando a malha medieval. No Rio, os sanitaristas tiveram sua época (ao menos para justificar as intervenções de Pereira Passos) e, mais recentemente, até os urbanistas tiveram sua chance, na Barra da Tijuca e na Avenida Chile. Atualmente, é a “mão invisível” quem planeja as cidades. No caso das favelas, num “revival” do período medieval, foram as populações locais que teceram aquela malha peculiar, forjada no confronto das necessidades com as possibilidades. Entregar às forças de segurança a tarefa de “redesenhar” as favelas, ou de ditar os padrões de urbanização a serem aplicados, é de uma inconsequência terrível. A “solução” de um aspecto muito particular da vida dos favelados (acesso das viaturas policiais) não pode ser isolada das consequências que essa visão parcial pode gerar sobre o todo da vida social, cultural e econômica ali existente.  Duplicar a Estrada da Gávea, por exemplo, vai destruir inúmeros pontos comerciais, eliminando a fonte de renda dos empreendedores locais e os pontos de encontro dos moradores.

2) O planejamento urbano de uma favela deve respeitar que critérios?

MR: É preciso entender que a favela é um pedaço peculiar da malha urbana, onde se oculta uma ordem particular atrás da aparente desordem. As altas densidades, as vielas e escadarias são os padrões de urbanização que viabilizaram essas ocupações e ainda viabilizam a permanência das populações mais pobres em localizações privilegiadas na cidade. Alterem-se esses padrões e serão alteradas as características de suas populações. Melhorias na acessibilidade e nas condições de saneamento, ao tempo em que se dotam as favelas de equipamentos sociais, prescindem de alterações nesses padrões. Esse é o desafio de quem projeta em favelas.

3) Qual a sua avaliação das intervenções previstas nas favelas do Rio?

MR: Posso falar sobre o teleférico que pretendem instalar na Rocinha e em outras favelas cariocas, num arremedo simplista das soluções de Medellín. Acho que as estações ocupam espaço em demasia, num local onde espaço tem um valor especial. Os mais velhos têm receio de viajar “pendurados naqueles fios” e, quando venta, o sistema deve ser parado, por medida de segurança. Esse modo não permite o transporte de cargas, morro acima, nem a descida do lixo doméstico. Quando o teleférico conduz os passageiros diretamente aos pontos de acesso ao transporte de massa (como no Alemão), tira o povo das ruas e altera a importância dos pontos comerciais tradicionais, localizados ao longo dos antigos fluxos. Já do plano inclinado, que contorna todas essas limitações, sou um adepto entusiasta (vide Pavão/Pavãozinho e Santa Marta).

4) O senhor acha que as medidas que vêm sendo implantadas nas favelas do Rio podem provocar a gentrificação e a necessidade de ocupação de outras áreas da cidade?

MR: Se estamos falando de abrir vias nas favelas, nos padrões da cidade formal, certamente. De um lado a cidade perde suas “alfamas”, suas “ilhas do egeu”, pedaços criativos de um urbanismo único. De outro lado, a implantação de padrões de urbanização “consumíveis” pela classe média, aliados a programas de regularização fundiária, como esclarece o Prof. Pedro Abramo, podem promover uma “expulsão branca” das populações originais, pressionadas pelas forças de mercado. Para onde elas irão? Para onde encontrarem terra mais barata ou propícia a uma ocupação pacífica, provavelmente nas periferias, estendendo indesejavelmente a nossa cidade/metrópole.

5) De que forma segurança pública pode contribuir com o urbanismo?

MR: Urbanismo, “latu censu”, envolve vida social, trocas culturais e movimento de pessoas pelos espaços públicos. A tarefa de garantir esses atributos, complementando os bons projetos, é do aparato de segurança pública.

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Comentários (08)

ótimo Manoel.
o incrível é que depois de mais de três décadas de programas de urbanização, as pessoas (principalmente os gestores públicos) ainda não entendem que favela é parte da cidade e que existem padrões de intervenção que lhe são próprios. volta sempre á tona, o velho padrão da cidade convencional.

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Excelentes pontos de vista.
O divertido é que foi o próprio secretário de segurança que há cerca de 1 ano ou pouco mais declarou que de nada adiantava fazer UPPs e colocar a polícia nas favelas sem atrás não vinham os investimentos em serviços sociais. Eles esqueceram de chamar os urbanistas....

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Manoel Ribeiro é inegavelmente o arquiteto brasileiro que detém o maior conhecimento desta temática. Deve ser de forma sobeja ouvido quando se falar de Urbanização de Favelas. De parabéns o IAB por esta notável abertura de espaço para um profissional que conhece o assunto.

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Infelizmente continuamos sendo atropelados pela "urgência da solução", pelo bem imediato dos moradores de assentamentos precários. E, por outro lado, o arquiteto e urbanista mais esforçado (mesmo trabalhando em grupos interdisciplinares) esbarra em questões ainda insolvíveis como o processo de gentrificação dos espaços. Depois de muitas entrevistas, palestras, opiniões e discursos inflamados que eu assisti e participei desde o tempo de faculdade (final da década de 90), ainda não vejo melhor caminho do que a educação/instrução do morador sobre o que é a cidade e qual o seu papel nela. Afinal, o dito "padrão de urbanização consumível pela classe média" continuará sendo o objetivo final de todos os moradores que o veem promovido na mídia, e assim, o anseiam.

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Uma entrevista excelente com um dos mais reputados (aquém e além Atlantico) urbanistas brasileiros...Esperemos que a classe politica saiba ouvir os comentários e pareceres dos especialistas.

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Muito legal sua posição a respeito do teleférico da Rocinha. Sou morador daqui e participo de um grupo que está fazendo oposição a esse projeto. Temos um campanha na internet http://paneladepressao.org.br/cam . O IAB devia realizar um seminário sobre a proposta de urbanização do PAC2, São 1,6 bilhões que não podem ser gastos de qualquer maneira.

A simples existência de uma favela já é sinônimo de falência e incompetência no planejamento da cidade. Não existe lugar com elevado índice de IDH que seja tomado por favelas. Esse absurdo que existe no Rio , do culto as favelas , é um tiro no pé que joga contra o desenvolvimento social dos cariocas.

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Tem um povinho estranho que adora favela e regiões degradadas. É a maneira deles continuarem a falar mal do capitalismo. Se todos tiverem moradia dignas como esses tais socialistas vão criticar o capitalismo ?
Como já dizia Joãozinho Trinta : O povo gosta de luxo.Quem gosta de pobreza é intelectual e sociólogo

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