“É preciso fortalecer o Centro do Rio”, defende Fabiana Izaga

Data: 25/02/2016

Departamento: IAB RJ

Os desafios da cidade do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana foram discutidos ontem, 24 de fevereiro, no Fórum Internacional “A metrópole contemporânea. Os mundos da lusofonia,” na sede do IAB-RJ, no Flamengo. Para a arquiteta Fabiana Izaga, que apresentou a palestra de abertura do evento, as metas da cidade para os próximos anos são: consolidação da autoridade metropolitana, restruturação da metrópole a partir do grande centro, recuperação da Baía de Guanabara; geração de densidade do território; e o planejamento de uma rede articulada de transporte.

“Planejar em grande escala é a única alternativa de pensar a cidade numa perspectiva de sustentabilidade. Reconhecer o grande centro – Centro, Região Portuária, Rio Comprido, São Cristóvão, Glória e o Centro de Niterói – é indispensável nesse processo, assim como a recuperação e articulação da Baía de Guanabara. É preciso conter ainda o espraiamento da cidade, promovendo o adensamento das áreas estruturadas da Zona Norte, e a criação de uma rede metropolitana de transportes”, defendeu Fabiana Izaga.   

Dados apresentados pela arquiteta mostram que 60% da população metropolitana do Rio vivem ao longo das linhas de trens e no entorno da Baía de Guanabara, apontada por Fabiana como uma centralidade importante da região. Porém, parte significativa dos investimentos públicos são aplicados em áreas distantes do centro urbano consolidado. Ela cita como exemplo as linhas de BRTs e a expansão da linha 4 do metrô, que hoje direcionam o crescimento da cidade sem coerência.

“O desenho da inserção do BRT é funcionalista, pois prevê atender um vetor de transporte, mas ignora a ambiência urbana e a escala suburbana. Enquanto o BRT Transcarioca passa por áreas consolidadas e se conecta com o metrô, em Vicente de Carvalho, e as estações de trem de Madureira e de Olaria, o BRT Transoeste estimula a ocupação em áreas frágeis, que deveriam ser protegidas”, explicou Fabiana Izaga.

A arquiteta também criticou a falta de um plano global para o Centro e para a Região Portuária: “as obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) estão vindo a reboque das parcerias público-privada (PPP) feita no Porto Maravilha, baseada na venda dos certificados de potencial adicional de construção (Cepacs). Parece-me que apenas 14% dos empreendimentos lançados na área sejam para fins habitacionais. Se não tomarem cuidado, a região vai se transformar num cemitério de prédios comerciais.”

Para o arquiteto e conselheiro federal do CAU/BR Luiz Fernando Janot, hoje é o capital financeiro que determina a morfologia das cidades, e o Rio de Janeiro não foge à regra. Assim como Fabiana, Janot não considera viável pensar o Rio sem levar em consideração a região metropolitana, que abrange 21 municípios e uma população de 12 milhões de habitantes.

“Diariamente, cerca de um milhão de pessoas entram e saem do Rio. A falta de um planejamento metropolitano gera descasos, como a poluição da Baía de Guanabara. Sou carioca e acredito que o Rio possui um significado que poucas cidades brasileiras possuem. Em suas ruas, está estratificada a história. O Centro é a sua alma. A cidade tem uma beleza inigualável. Contudo, seus contrastes são imensos. Conviver com isso é uma amargura cotidiana”, lamentou Janot.

Apesar dos problemas apresentados, o arquiteto e ex-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ) Pablo Benetti acredita que a solução do Rio de Janeiro está na sua região metropolitana. “As metrópoles concentram, historicamente, os melhores e piores exemplos da humanidade. Ou a gente conserta o mundo a partir da metrópole, ou vamos conviver em situações piores”, afirmou.

Segundo Benetti, apesar da existência de mecanismos legais de planejamento avançados, como os planos diretores e o próprio Estatuto da Cidade, quem dita o desenvolvimento da cidade é o capital financeiro, pensamento que compartilha com Janot. “58% da produção habitacional recente do Rio está concentrada em Bangu, Campo Grande, Guaratiba, Realengo e Santa Cruz, locais distantes do centro urbano consolidado. Esses bairros juntos respondem por 7% dos empregos da cidade, enquanto o Centro, onde a oferta de unidades habitacionais é praticamente nula, concentra 40% do emprego”, justificou Benetti, cuja avaliação é que a habitação deixou de ser um bem de consumo para virar um ativo financeiro.  

Para o presidente do IAB, Sérgio Magalhães, a crítica de que a especulação imobiliária e o capitalismo fazem com que a cidade deforme sua imagem ambiental pela produção de espigões precisa ser relativizada. “A terra, em razão de ser propriedade privada, tem as dificuldades que sabemos. No entanto, toda a área de Brasília é pública, e a expansão se deu da forma que conhecemos”, explicou. Ainda segundo o arquiteto, hoje estamos vivendo um tempo em que se constrói um novo conceito de cidade. “As novas gerações já aderiram a esse novo conceito: uma cidade mais amigável; de maior diversidade e menos desigualdade; que não se submete aos isolamentos funcionalistas.”

O Fórum Internacional “A metrópole contemporânea. Os mundos da lusofonia”, que nesta quinta-feira, 25 de fevereiro, vai discutir as características mais importantes das principais cidades dos países/territórios de língua portuguesa, conta com as presenças do presidente do CAU/BR, Haroldo Pinheiro, do presidente Conselho Internacional de Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), João Rodeia, dos representantes das instituições de Arquitetura e Urbanismo dos dez territórios que compõem o CIALP, e dos presidentes dos CAU estaduais que estão reunidos no Rio de Janeiro.

O fórum faz parte da série de eventos ARQ21, iniciativa que visa a colocar em discussão temas essenciais à arquitetura e às cidades ao longo dos próximos três semestres.  O primeiro evento, que se realizará até julho, será dedicado ao tema da Metrópole Contemporânea e o papel de suas áreas centrais para o desenvolvimento. O ciclo surge para estimular as discussões e o desenvolvimento de estudos com foco no 27º Congresso Mundial de Arquitetos, promovido pela União Internacional dos Arquitetos (UIA) – e organizado pelo IAB, que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2020.

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