A Contribuição das arquitetas nas primeiras décadas do IAB

Data: 08/03/2019

Departamento: Nacional

A presença ativa de mulheres nas atividades do IAB data, pelo menos, da realização do 1º Congresso Brasileiro de Arquitetos (CBA), ocorrido em São Paulo, em janeiro de 1945. Nos anos seguintes, Giuseppina Pirro seria a arquiteta que mais se destacaria nas atividades do IAB. 

As suposições do parágrafo anterior e de todo este texto se embasam na documentação do acervo histórico do IAB, armazenado em Brasília. Segundo relato de Haroldo Pinheiro, ex-Presidente da Direção Nacional do IAB, nos anos finais do Século XX, aquela documentação estava no Rio de Janeiro, reunida em fardos repletos de fungos. Antes que a perda fosse irreparável, a Direção Nacional do IAB contratou, nos anos de 2001 e 2002, uma equipe de biblioteconomistas, que limpou a documentação e a organizou por datas. Após esses procedimentos, os documentos foram transferidos para uma sala pertencente ao IAB, em Brasília. Trata-se de um acervo de inestimável valor, que ajuda a esclarecer grande parte das inquietações e atividades da classe de arquitetos ao longo do Século XX. 

Pois no “Relatório das atividades do Instituto de Arquitetos do Brasil durante o ano de 1945”, o então presidente do IAB, Paulo de Camargo e Almeida, afirmava que os organizadores do 1º  CBA pretendiam tratar “problemas de real interesse para a coletividade quanto à planificação geral da cidade, suas periferias e, muito especialmente, os núcleos de atividades rurais e industriais”. Ele louvava o fato de que o evento “contou com a colaboração não só de todos os arquitetos e engenheiros, como também das repartições públicas Federais, Estaduais e Municipais, Institutos de Previdência Social, Associações científicas e cultu rais e, de um modo geral, de todas as profissões liberais interessadas na solução de problemas que interessam de perto o bem estar das coletividades urbanas e rurais”.

Na Delegação do Rio de Janeiro, os documentos registravam a presença de Valeria Van Loos. A arquiteta Estefânia Paixão participou da comissão que debateu e apresentou conclusões relativas ao tema Função Social da Arquitetura. Para além das arquitetas graduadas, o Congresso permitiu a participação de estudantes de Arquitetura, reunidos na categoria dos “Aderentes”. Entre os Aderentes, havia cinco nomes femininos: Vera Nabuco de Coelho Gomes, Carmem de Azevedo Soares, Olga Verjovsky, Leda Estelita e Giuseppina Pirro.

As “aderentes” do 1º CBA repetiam um procedimento da administração do IAB. Além dos sócios plenos, havia a categoria dos sócios aspirantes, diretamente relacionada ao Diretório Acadêmico do Curso de Arquitetura da E.N.B.A. O “Relatório das atividades do IAB no ano social de 1946” registra que, em 1945, sete estudantes do sexo feminino se filiaram ao Instituto: Maria Laura Osser, Maria Adelaine R. Albano, Anete França, Berta Maria Constanza, Juliana Von Raummer, Maria Alice C. Doria e Margarida Arruda. 

Ainda em 1945, a Companhia Vidreira do Brasil (Covibra) instituiu um concurso para ante-projetos de uma Vila Operaria em Neves, no Municipio de São Gonçalo (RJ). No já citado “Relatório das atividades do IAB”, de 1945, o presidente Paulo de Camargo e Almeida aclamava o fato de que a Covibra atendeu às normas do IAB para concursos públicos. O concurso constou de duas etapas: na primeira, todos os concorrentes apresentaram “um simples esboço”; os quatro melhores classificados participariam da segunda etapa. Dezenove concorrentes se inscreveram. Entre os quatro classificados para a segunda etapa, aparecia um trabalho apresentado pela dupla Estefânia Ribeiro Paixão e Jofre de Oliveira Maia. 

O Relatório do IAB afirmava que esses profissionais se habilitaram “a concorrer a 2ª etapa, cuja data de realização ainda não foi estabelecida”. Mas, em junho de 1946, a Covibra desistiu de prosseguir com o concurso (Carta de Raul Feiteira, Diretor-Superintendente, ao IAB, 24/06/1946). Porém, antes da desistência, a empresa distribuiu os valores da premiação. Os oitenta mil cruzeiros, que seriam entregues ao vencedor, foram divididos entre os classificados. Ou seja: cada trabalho recebeu vinte mil cruzeiros, “como indenização pela desistência do prosseguimento do aludido concurso”. O valor recebido pela dupla Estefânia Ribeiro Paixão e Jofre de Oliveira Maia constitui o primeiro prêmio recebid o por uma arquiteta em um concurso promovido pelo IAB. Nos anos seguintes, Estefânia Ribeiro Paixão participaria de atividades IAB. O Relatório das Atividades do IAB no ano social 1949-50 registrava que que Estefânia Ribeiro Paixão, Maria Laura Osser e Renato Righeto compunham a Comissão da Biblioteca do IAB.

Havia, na década de 1940, o “Prêmio Instituto de Arquitetos do Brasil”, uma láurea acadêmica recebida em meio profissional. O prêmio era concedido ao profissional que alcançasse a maior média geral entre os colegas recém-graduados na Escola Nacional de Belas Artes. Em agosto de 1946, receberam o prêmio as arquitetas Maria Adelaide Rabello Albano (turma de 1944) e Giuseppina Pirro (turma de 1945).

O Relatório das Atividades do IAB 1949-50 informava que Giuseppina Pirro, Heraldo Cardoso de Souza e Mauricio Roberto compunham a Comissão de Aproximação com os Alunos da Faculdade Nacional de Arquitetura. O assombroso título esclarece que a Comissão deveria agendar palestras de profissionais e realizar visitas a obras de interesse. E demonstra que, após a “aderência” ao 1º CBA e da melhor média de curso, Giuseppina Pirro seguiria em seus esforços voluntários ao IAB. Nas gestões de 1950 a 1956, ela seria a única mulher da Diretoria, participando do Conselho Fiscal. 

A participação de Giuseppina Pirro nas atividades do IAB pode ser encontrada tanto nos relatórios anuais quanto nas Circulares. Ocorria que, no início da década de 1950, o IAB distribuía circulares mimeografadas aos associados do Rio de Janeiro. Em geral, a numeração das circulares coincidia com o ano social do IAB, que ia de Agosto até Julho. Então, as circulares a partir de agosto recebiam os números 1, 2, 3 e assim sucessivamente, ao longo dos meses, até que um novo ciclo se reiniciasse no ano seguinte.

Em 1953, uma Circular divulgava que Giuseppina Pirro representava o IAB do Rio de Janeiro junto à II Bienal de São Paulo, cabendo-lhe encaminhar inscrições de trabalhos (Circular no. 15, de 27/02/1953). Em agosto de 1953, a Circular no. 5 informava aos arquitetos do Rio de Janeiro que o Conselho Diretor do IAB criou diversas Comissões, “designando elementos do seu quadro social para supervisioná-las”. Giuseppina Pirro era a responsável pela “Comissão de Congressos e Exposições de Âmbito Nacional”. 

Dois meses depois, a Circular no. 7 anunciava aos “prezados colegas” a realização do IV CBA, em São Paulo, em Janeiro de 1954. Após apresentar o temário e os valores de inscrições, a Circular esclarecia que, “Para quaisquer outras informações os associados deverão dirigir-se ao Instituto de Arquitetos do Brasil, Comissão de Congressos Nacionais, arquiteta Giuseppina Pirro”.

Na Circular nº4, de 9 de outubro de 1951, a diretoria se dirigia aos sócios e apresentava uma outra atividade de Giuseppina Pirro:

“Atendendo ao pedido da revista L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, que está preparando uma reedição do número especial sobre o BRASIL, para o começo do ano de 1952, solicitando ao colega que apresente sua colaboração, enviando os elementos necessários à publicação de projetos, de preferência construídos ou em construção, com memória explicativa em português. Em virtude da premência da remessa do material, pedimos entregar a documentação até o dia 30 de novembro próximo corrente, na sede do IAB., a/c da arquiteta GIUSEPPINA PIRRO”. (maiúscula no original)

Em 1953, a Circular nº 1 (6/8/1953) divulgava que L’Architecture d’Aujourd’hui preparava um número a respeito de “habitações individuais”. Em dezembro, a Circular no. 9 (7/12/1953), afirmava que que a revista publicaria um número “sobre a Arquitetura Contemporânea no Mundo”. No ano seguinte, na Circular no. 10 (23/4/1954), informava-se que L’Architecture d’Aujourd’hui publicaria um número a respeito de Centros Esportivos. Em todos os casos, os sócios que tivessem interesse em publicar algum material, deveriam entregá-lo “aos cuidados da arquiteta Giuseppina Pirro”.
 
Naqueles anos, a arquitetura moderna brasileira derivada do purismo de Corbusier avançava para obter características próprias, difundia-se pelos grandes centros do país e se tornava um dos itens do projeto nacional-popular, que visava estabelecer uma identidade para a nação. A contínua militância de Giuseppina Pirro no IAB estabelecia uma ponte para a divulgação daquela arquitetura muito além das fronteiras do país.


Autor: Irã Taborda Dudeque
Arquiteto e Urbanista (PUCPR)
Mestre e Doutor pela FAU-USP
Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Delegado do Paraná no COSU-IAB
Secretário Geral do IAB-DN (2008-2010)
Vice-Presidente do IAB-DN (2012-2017)


 

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