Arquitetura de Museus no Brasil: avanços e retrocessos

Data: 18/05/2019

Departamento: Nacional

Entre os anos 1950 e 1960, três museus marcaram o campo da arquitetura de museus no Brasil: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), projetado por Affonso Eduardo Reidy; o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), em Salvador, ambos concebidos pela arquiteta de origem italiana Lina Bo Bardi. 

Apesar das indiscutíveis qualidades arquitetônicas do MAM-RJ, é o Masp que representará uma ruptura com a noção clássica de museu, caracterizada por um percurso contínuo, linear e unidirecional. Ao MAM-BA, Lina incorporará um Museu de Arte Popular, defendendo que o museu não deve ter “o ar de Igreja que exclui os iniciados”.
 
Os dois mais premiados arquitetos brasileiros elaboraram diversos projetos de museus. A consagração internacional de Paulo Mendes da Rocha, a partir da segunda metade da década de 1980, se deve, em grande medida, aos seus projetos de museus, como o Museu Brasileiro da Escultura, a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, ou o Museu Nacional dos Coches, em Belém, nas cercanias de Lisboa.
 
Oscar Niemeyer, por sua vez, projetou no mesmo período dezenas de equipamentos culturais, espalhados por todo o país, se consagrando como o mais prolífico arquiteto de museus do país. Alguns exemplos são o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o Museu Oscar Niemeyer ou “Olho” de Curitiba, o Museu Nacional Honestino Guimarães em Brasília, o Museu de Arte Contemporânea de Goiânia e o Museu de Arte Popular de Campina Grande.
 
A partir do início do século XXI, a construção de museus e equipamentos culturais se tornou prioridade na agenda política de muitos prefeitos e governadores. Este período coincide com a aparição, no cenário arquitetônico brasileiro, de uma nova geração de arquitetos, em grande parte sediados em São Paulo, e muitos dos quais antigos colaboradores de Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha. 
 
Neste panorama, se destaca o escritório Brasil Arquitetura, de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci, antigos colaboradores de Lina. A partir dos anos 2000, Ferraz e Fanucci desenvolvem, em todo o Brasil, uma série de projetos de adaptação de edifícios históricos em museus e centros culturais, com destaque para o Museu Rodin, em Salvador; o Museu do Pão, em Ilópolis (RS); e o Museu Cais do Sertão, em Recife.
 
Os discípulos e parceiros habituais de Mendes da Rocha também têm se destacado, em São Paulo, com projetos de grande repercussão, como o Museu do Chocolate, em Caçapava (SP), do Metro Arquitetos.
 
Ao mesmo tempo em que Niemeyer e Mendes da Rocha tiveram oportunidade de construir seus primeiros equipamentos culturais no exterior, alguns arquitetos do star system internacional começarão a projetar no Brasil.
 
Marco desse processo é o projeto do português Álvaro Siza para a Fundação Iberê Camargo, às margens do rio Guaíba, em Porto Alegre, uma das obras arquitetônicas de maior qualidade erguidas no país nas últimas décadas, com suas eruditas referências à arquitetura moderna brasileira, em especial às obras de Niemeyer e ao SESC Pompeia, de Lina Bo Bardi.
 
A vitória da candidatura do Brasil para organizar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 fomentou a realização, nas cidades-sede deste importante evento esportivo, de uma série de projetos urbanos de grande escala. No Rio de Janeiro, esta situação foi exponencialmente aumentada em função da sua escolha para receber também os Jogos Olímpicos de 2016. Assim, em 2009, teve início a Operação Urbana Porto Maravilha, que incluiu, dentre muitas outras ações voltadas à requalificação da zona portuária do Rio de Janeiro, a recuperação do seu patrimônio edificado e a implantação de equipamentos culturais. Na praça Mauá, após a bem-vinda demolição de um imenso viaduto construído décadas antes, a Operação Urbana Porto Maravilha contemplou a construção de dois grandes museus: o Museu de Arte do Rio (MAR), projetado pelo escritório Bernardes + Jacobsen, e o polêmico Museu do Amanhã, do igualmente polêmico arquiteto espanhol Santiago Calatrava.
 
Por trás da construção do MAR e do Museu do Amanhã está a Fundação Roberto Marinho (FRM), que também se encontra à frente de outro importante museu no Rio de Janeiro: a nova sede do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), em Copacabana, projeto do escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro, escolhido em concurso fechado que contou com a participação de importantes escritórios de arquitetura brasileiros e estrangeiros.
 
Em Belo Horizonte, por sua vez, a construção de uma cidade administrativa a 40 km de distância da cidade, projetada por Oscar Niemeyer, resulta na decisão de adaptar os edifícios ecléticos que abrigavam as secretarias estaduais, na Praça da Liberdade, a usos culturais. O Circuito Liberdade conta atualmente com quinze equipamentos, destacando-se o Museu das Minas e do Metal, projetado por Paulo e Pedro Mendes da Rocha.
 
No mesmo período em uma antiga fazenda no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, um empresário colecionador de arte contemporânea instalava o Instituto Inhotim, rapidamente transformado no maior centro de arte ao ar livre da América Latina, que recebe anualmente mais de 350.000 visitantes em um parque de 786 hectares de área.
 
Ao contrário dos museus tradicionais, em que as diversas obras de arte estão localizadas em um único edifício, em Inhotim cada obra (ou o conjunto de obras de um mesmo artista) está abrigada em um pavilhão específico, projetado especificamente para esta finalidade. Apesar de ter provocado o interesse de arquitetos renomados como Norman Foster, os projetos dos pavilhões de Inhotim vêm sendo concebidos por jovens arquitetos brasileiros, recebendo a atenção da mídia especializada no Brasil e no exterior, dando visibilidade ao trabalho de excelentes jovens arquitetos, como os dos escritórios Arquitetos Associados, Rizoma e Tacoa Arquitetos, e transformando Inhotim em um singular espaço de valorização da arquitetura contemporânea brasileira.
 
Após diversos anos de acelerado crescimento econômico, que se refletiu em intensa e extensiva criação de museus em todo o país, a crise econômica, iniciada em meados de 2014, não só freou o processo de construção de novos museus, como também resultou na paralisação de obras em estágio avançado de construção – como o MIS-RJ, a Praça dos Museus da Universidade de São Paulo e o Cais das Artes em Vitória, os dois últimos projetados por Mendes da Rocha e colaboradores – e no fechamento, total ou parcial, de alguns importantes equipamentos já em funcionamento. Nesta última situação estão a Casa Daros, no Rio de Janeiro, que fechou suas portas em caráter definitivo após um período de apenas dois anos de funcionamento, e a Fundação Iberê Camargo, que, em 2016, passou a ser aberta para visitação apenas duas tardes por semana.

Entretanto, o acontecimento mais grave dentro da atual crise das instituições culturais no Brasil é o incêndio que, na noite de 02 de setembro de 2018, destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. O incêndio destruiu parte significativa de um dos mais importantes acervos históricos e científicos do país, ao mesmo tempo em que deixou em ruínas o antigo Palácio Imperial, tombado pelo IPHAN. A dupla restauração (ou re-instauração) do Museu Nacional – isto é, da sua arquitetura e do seu acervo – é, sem dúvida, o grande desafio a ser enfrentado, nos anos vindouros, pelos gestores públicos, arquitetos, museólogos, restauradores e demais profissionais brasileiros atuantes no campo do patrimônio e museologia.
Após a definição dos parâmetros de intervenção e do programa de necessidades pela UFRJ, IPHAN e IBRAM, o projeto de restauração arquitetônica do Museu Nacional deveria ser escolhido através de um concurso público internacional, como acontecerá com o projeto de reconstrução da agulha de Notre Dame de Paris, que, há pouco mais de um mês, caiu após um devastador e semelhante incêndio. Este concurso seria a forma mais democrática de escolher o projeto de reconstrução, escolhendo, através de um júri formado por especialistas brasileiros e estrangeiros, a proposta mais adequada para que o novo Museu Nacional, que surgirá das ruínas do palácio incendiado, possa cumprir o duplo desafio de restaurar o antigo palácio tombado e abrigar um museu adequado às demandas contemporâneas.
 
Nivaldo Andrade é Presidente Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Mestre e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é professor desta mesma instituição, nos cursos de graduação, mestrado e doutorado.
 
 

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