Tempos de cólera

Autor: Luiz Fernando Janot

Data: 09/04/2018

Tempos de cólera - O Globo 07.04.2018

A verdade é que a presença militar nas ruas e nas comunidades se tornou uma estratégia requentada que não impressiona mais ninguém

“O que me assusta não é a violência, mas a omissão de muitos.” - Martin Luther King

Volta e meia vejo gente falando em morar no exterior para se livrar da violência no Rio. Como não se trata de uma decisão simples, o projeto fica restrito a quem possui cacife para bancar tal aventura. Para os que ficam, só lhes resta a esperança de não ser a próxima vítima de algum delinquente desvairado ou de uma bala perdida.
O descrédito em relação à capacidade da polícia de conter a violência na cidade chegou a tal ponto que abriu espaço para ser gestado nos bastidores palacianos de Brasília, sem qualquer planejamento prévio, um processo de intervenção federal na segurança pública do Rio. A verdade é que a presença militar nas ruas e nas comunidades se tornou uma estratégia requentada que não impressiona mais ninguém.
Para quem não acredita em soluções imediatistas para problemas complexos, o jeito é se organizar para formular e discutir propostas de médio e longo prazo baseadas em indicadores confiáveis e experiências bem-sucedidas. Mais inteligência e menos improviso deve ser a tônica adotada. A sociedade precisa urgentemente descruzar os braços e debater projetos inovadores e diversificados que ajudem a reverter o quadro de violência e de miséria que vem deteriorando a cidadania e a própria vida na cidade.
Nota-se que alguns movimentos alternativos aos partidos políticos tradicionais começam a ocupar espaço nos meios de comunicação para divulgar seus princípios e buscar apoio para suas propostas de governança. Pelo que se observa, a maioria dessas propostas está impregnada de discursos ideológicos sem consistência e sem a necessária abrangência que a temática exige.
Os grupos mais radicais à direita focam sua ação na desconstrução da política e do Estado, na prevalência do econômico sobre o social, e na convicção de que a violência deva ser combatida olho por olho, dente por dente. Os segmentos mais extremados à esquerda, por terem dificuldades para lidar com a hegemonia do capitalismo no mundo globalizado, tendem a olhar o futuro da nação através da visão embaçada do seu espelho retrovisor. Na verdade, ambas as tendências representam o que poderíamos chamar de a vanguarda do atraso.
Em meio ao redemoinho de discursos esquizofrênicos, torna-se cada dia mais difícil se relacionar com grupos que destilam ódio pelas ventas. Eu me incluo no rol das pessoas chocadas com as atitudes raivosas desses indivíduos inconsequentes. Na contramão do radicalismo de ocasião, procuro me aproximar de quem agrega o contraditório à sua maneira de ver e tratar as complexas questões de natureza política.
Neste momento, o foco principal do meu interesse consiste na troca de experiências com pessoas de capacidade reconhecida em áreas distintas do conhecimento com o objetivo de discutir e estabelecer diretrizes que possam, eventualmente, ser incorporadas a planos futuros de governo. Os princípios preconizados se voltam, em tese, para a melhoria da qualidade de vida e no bem-estar das camadas mais pobres da população.
Entre as metas levantadas inicialmente destaca-se o controle da expansão urbana; a preservação e valorização do ambiente natural; a ampliação das redes de saneamento básico; a despoluição de rios, lagoas e baías; a recuperação dos espaços urbanos e do patrimônio histórico edificado; o fomento às fontes limpas de energia; a integração dos meios de mobilidade urbana; a requalificação espacial dos aglomerados urbanos informais; o estímulo às atividades econômicas geradoras de emprego; a consolidação de feiras e congressos nacionais e internacionais; a organização de eventos turísticos diversificados; e, obviamente, a construção de uma política cidadã para a segurança pública.
Depois de debatidas e desenvolvidas metodologicamente cada uma dessas proposições e outras que deverão ser acrescentadas, teremos um material significativo para ser avaliado e eventualmente incorporado aos programas de candidatos que possuam compromissos, de fato, com o cargo que pleiteiam. Ao contrário da atitude do prefeito de São Paulo, que mal esquentou a cadeira e já vai deixar o cargo para se candidatar ao governo do estado. Política é coisa séria, que precisa ser tratada com mais respeito e dignidade.
Mas, pelo andar da carruagem, tudo leva a crer que nas próximas eleições não faltarão candidatos sem lastro político apresentando discursos formatados por marqueteiros ilustres para tentar demonstrar sua suposta competência. Portanto, todo cuidado é pouco para não se deixar enganar pela retórica ardilosa desses oportunistas de ocasião e da galera que vem junto com eles.

Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista.

Autor: Luiz Fernando Janot

Mini currículo: Arquiteto e Urbanista